segunda-feira, 30 de maio de 2011

Arthur Schopenhauer/Metafísica do Amor


Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão-somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um impulso sexual perfeitamente determinado e individualizado. (...)
(...) Pois é a geração futura na sua determinação absoluta individual, que caminha para a existência por meio dessas dores e desses esforços. Sim, é ela mesma que já se agita na escolha circunspecta, determinada, obstinada, procurando satisfazer esse impulso sexual, que tem o nome de amor. (...)
Porém, não é apenas a paixão insatisfeita que tem, às vezes, um desfecho trágico, mas também o amor satisfeito, que com mais frequência conduz à infelicidade que à felicidade. Pois as exigências do amor, colidindo com o bem-estar da pessoa envolvida, são de tal modo incompatíveis com as outras relações da sua vida, que destroem todos os projetos, esperanças e sonhos que foram construídos sobre ela. O amor não apenas está em contradição com as situações exteriores, como também o está, muitas vezes, com a própria individualidade, quando se projeta sobre pessoas que, fora das relações sexuais, seriam odiadas pelo amante, desprezadas e até mesmo repulsivas, Mas a vontade da espécie tem um tamanho poder sobre o indivíduos, que o amante fecha os olhos aos atributos que lhe são desagradáveis naquele que ama; de nada se dá conta, unindo-se para sempre ao objeto de sua paixão, de tal maneira o fascina essa ilusão, que desaparece tão logo a vontade da espécie se satisfaz, restando-lhe uma companheira detestada para toda a vida. Só assim pode se explicar como homens razoáveis e mesmo distintos unem-se a harpias e megeras, e não conseguem conceber como puderam fazer semelhante escolha. Por isso os antigos representavam o Amor de olhos vendados.
(...) Os antigos sentiram isso muito bem quando personificaram o gênio da espécie em Cupido, deus hostil e cruel, apesar de aparência infantil; um deus cruel, por isso mesmo mal-afamado, um demônio caprichoso, despótico e, não obstante, senhor dos deuses e dos homens: Tu, deorum hominumque tyranne, Amor! (Tu, amor, tirano de deuses e homens). Seus atributos são flechas mortíferas, uma venda e asas. A asas indicam a inconstância, que vem geralmente com a decepção, que é consequência do desejo satisfeito.
Arthur Schopenhauer, Metafísica do Amor, São Paulo, Editora Martin Claret, 2003, p.p. 81,84,104,105 e 106.

Imagem:William Bouguereau - Jeune Fille Se Defendant Contre L'Amour